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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Elkain

    Eu nasci em Moria, uma cidade a leste da capital, e lá cresci. Talvez aquela fosse a região mais bela de toda Vandhir: calçadas brancas com muitas árvores e fontes de água cristalina. A presença dos povos élficos nos abençoou com sua música e arquitetura. Vivi toda minha infância correndo e brincando naquelas ruas, vendo o sorriso de minha mãe e sem qualquer tipo de preocupação.

    Nosso soberano era bondoso e clemente. Panros, o justo. O tipo de pessoa que todos queriam que vivesse e governasse para sempre. Mas infelizmente até mesmo o mais amável dos seres está a mercê do tempo. Quando eu ainda era era um jovem rapaz, alguns anos antes de ser nomeado adulto, nosso senhor faleceu...

     Foi uma grande perda para todos. Insubstituível. E aquelas ruas de pedras brancas polidas cobertas com pétalas teriam sido um espetáculo maravilhoso aos olhos, se tudo não se tratasse de seu funeral.
    Foi então que eu descobri que nem tudo era paz. O sucessor do nosso senhor não se deu ao trabalho de prestar o mínimo respeito a nenhum legado do seu falecido pai. Desde que foi coroado, Wandakain governou com punhos de ferro a nossa cidade, prendendo, torturando e matando nossos irmãos. Aumentando os impostos, criando pedágios, e obrigando todos aqueles que eram capazes de erguer uma espada a unir-se às suas expedições. O meu pai foi tirado de nós.

    Diante dessa tirania, rebeldes começaram a se manifestar, mas a repreção acontecia até mesmo dentro dos templos e de nossas casas. Minha mãe dizia que tudo iria melhorar, que nosso pai iria retornar um dia.. Tola esperança. Suportamos o tirano por vários anos, até que a legião rebelde começou a ganhar força, mas a maioria de nós apenas ficava em casa e rezava para que eles tivessem sucesso na guerrilha, já que todo tipo de carregamento era escoltado e não havia como colaborar com a rebelião sem arriscar.

    Foi então que a pegaram. Eivana. A garota mais doce que já conheci. A última pessoa na terra com quem os miseráveis precisariam se preocupar. Os impostos estavam sendo arrancados de nós e ela não tinha dinheiro para bancar os medicamentos de que precisava o seu pai. Precisou comprá-los de mercadores que se infiltravam pelas muralhas. Infelizmente foi vista durante as visitas noturnas e seguida até sua casa. Foram encontrados os remédios, e ela foi acusada de contrabando e sonegação. Eu nem quis imaginar o que fizeram com ela quando a reencontrei. Sim.. eu a reencontrei. Consegui convencer minha mãe a deixar a cidade e nos juntamos a uma caravana formada pelas mesmas pessoas com as quais um dia convivemos tranquilamente. Caminhamos por vários dias enquanto nosso número diminuia. Pessoas se instalavam nas aldeias vizinhas onde seus parentes e amigos habitavam. Eu decidi seguir até a pequena cidade onde os rebeldes se concentravam e procurá-los foi a primeira coisa que fiz ao chegar. Ela tentou me dissuadir. Mas eu TINHA que fazer alguma coisa.

    A guerrilha se instaurou por mais treze anos anos, até que a rebelião ganhou força o suficiente para uma investida final contra o exército de Moria. Tivemos que atacar os muros e derrubar os portões da nossa própria cidade natal, matar os soldados que um dia nos defenderam, aqueles que costumávamos cumprimentar nas praças. Enfim nossas investidas tiveram sucesso, e o maldito Wandakain foi capturado e julgado sob nossas antigas leis. Krux, nosso patrono e líder supremo da rebelião teve o prazer de ser o algoz do tirano. Como eu queria ter colocado minhas mãos naquela garganta.

    Após tudo haver acabado houveram tempos turbulentos enquanto um novo soberano era nomeado, mas nada comparado a quando o nosso último ainda estava no trono. Após a última batalha passamos a ser conhecidos entre os populares como vingadores, justiceiros.. até mesmo heróis. E logo a notícia da rebelião se espalhou, e alguns grupos da nossa tropa visitaram cidades vizinhas, vendendo sua imagem e seu serviço. As demais nações ameaçavam declarar guerra contra Moria, por seus ataques não oficiais chefiados pelos pequenos grupos de antigos rebeldes. Foi então que Krux nos deu sua última ordem. Precisávamos deixar aquela cidade para trás. Nossas casas e famílias, a cidade pela qual havíamos lutado e morrido...

    Muitos se recusaram e se voltaram contra nosso próprio líder, mas então até mesmo eu fui capaz de perceber a sabedoria por trás daquelas palavras. Toda a força e eficácia da nossa organização recaía justamente sobre o nosso anonimato (...) Era preciso cumprir aquela ordem. Assim deixei para traz a minha casa, mãe, irmãos, amigos... e Eivana, já que não apenas o nosso povo precisava da nossa proteção, e nos espalhamos por todos os recantos do continente, de forma que sempre mantínhamos contato com a nossa ordem, oferecendo ajuda a todos aqueles que como nós, eram oprimidos.

    Desde o dia em que deixei minha cidade, dediquei a vida ao manejo das armas, venenos e das artes mortais, levando justiça, vingança e liberdade àqueles que por qualquer motivo não pudessem conquistá-las sozinhos, respondendo a todos os chamados da minha ordem e abatendo qualquer inimigo com um único golpe da minha lâmina.
   
    Meu nome é Elkain, de Moria, e nossa história será contada por gerações.


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